Portugal Medieval – O fim da 1ª Dinastia.

A história de Portugal é complexa e muito vasta. O início e o final de cada dinastia tiveram uma relevância significativa nos acontecimentos que lhes seguiram e que marcaram de forma irreversível a nossa identidade, cultura e aquilo que hoje somos como país independente Europeu.

D. Fernando I – O Formoso, o belo e o inconstante.

A monarquia Portuguesa reinou em Portugal durante cerca de 767 anos.

É muito tempo! Se compararmos com os recentes 109 anos de República, a mesma é ainda uma criança. Quase oito séculos de história não são fáceis de interpretar, entender e integrar, ainda para mais com a agravante de nalguns casos não existir documentação, e a que existe ser por vezes escassa, incompleta, de difícil consulta e acesso.

Hoje decidi escrever um pouco sobre o fim da 1ª dinastia e os acontecimentos que levaram a um período de interregno de dois anos na nossa história monárquica, conhecido como a crise de 1384-1385.

Durante o período em que Portugal viveu como uma monarquia, existiram quatro grandes dinastias:

1ª Dinastia – Afonsina – 1143 a 1383 – (240 anos)

2ª Dinastia – Aviz – 1385 a 1580 – (195 anos)

3ª Dinastia – Filipina – 1581 a 1640 – (59 anos)

4ª Dinastia – Bragança – 1640 a 1910 – (270 anos)

A primeira dinastia teve a duração de 240 anos. Nos primeiros 105 anos, de 1143 a 1248, a prioridade dos nossos reis foi a Reconquista Cristã, com a conquista de território aos árabes, e a luta pela autonomia e independência de Castela. Eram frequentes as doações de terras e títulos à nobreza e ao clero, como forma de recompensa pelo seu apoio na Guerra. Entre 1248 e o final do reinado de D. Fernando I em 1383 viveu-se um período de consolidação da monárquica, com várias tentativas de centralização do poder na coroa e afirmação dos poderes reais sobre os senhores feudais e a igreja.

O último rei da 1ª dinastia foi D. Fernando I, o Formoso, que reinou entre 1367 e 1383.

D. Fernando I casou com Dona Leonor Teles. Este casamento nunca foi bem aceite pela nobreza, uma vez que estabeleceu uma aliança com um dos mais poderosos membros da alta nobreza, João Afonso Telo, tio da rainha, conde de Barcelos e de Ourém. Esta linhagem veio, assim, a dispor de grande influência junto do monarca. O casamento criou uma forte oposição entre vários sectores da nobreza, que se manifestaram contra o crescente peso da família de Leonor Teles e pela própria pessoa da rainha.

Durante o seu reinado, D. Fernando I enfrentou três guerras com Castela (1369-1371; 1372-1373; 1381-1382), uma sucessão de maus anos agrícolas, a peste endémica e a conjuntura de crise no Ocidente Europeu. As relações com a Igreja foram marcadas pelo Cisma do Ocidente (1378-1418). Como consequência desta crise, a existência de dois papas, Urbano VI em Roma, e Clemente VII em Avinhão teve consequências na orientação das principais monarquias da Cristandade Ocidental. Por um lado, com a França e Castela a apoiarem o papa de Avinhão, e a Inglaterra a tomar partido pelo papa de Roma.

D. Fernando I foi mudando a sua posição de acordo com as alianças político-diplomáticas que ia fazendo. Começou por apoiar Clemente VII em 1378, depois apoiou Urbano VI em 1380, voltando a apoiar Clemente VII no ano seguinte. Estas mudanças de posição tiveram provavelmente como base a instabilidade política com a vizinha Castela e a crise no Ocidente Europeu.

Esta inconstância provocou também grandes divisões internas no clero português.

No âmbito da Guerra dos Cem Anos, D. Fernando I, variou também a sua posição consoante as circunstâncias. Esteve do lado da França e Castela entre 1373 e 1380, vindo finalmente a negociar uma aliança com a Inglaterra em 1380, confirmando assim o antigo Tratado de Tagilde estabelecido em 1372, pelo qual se estabelecia uma união de Portugal e Inglaterra contra França e Castela.

Alcançada a paz definitiva com Castela em 1382, D. Fernando I propôs ao monarca vizinho Juan I que se casasse coma a sua filha e herdeira D. Beatriz. Como resultado desta proposta foi realizado em 2 de Abril de 1383 o Tratado de Salvaterra de Magos. Poucos meses depois, a 22 de Outubro, morria D. Fernando I.

Com a sua morte o que estava definido no tratado de Salvaterra de Magos foi executado. Os pontos mais importantes deste tratado fixavam que Portugal e Castela se manteriam como reinos separados, mas caso D. Fernando morresse, como veio a acontecer, D. Beatriz e o seu marido Juan I seriam reis de Portugal, sucedendo os filhos de ambos na coroa Portuguesa. Se não houvesse filhos do casamento de D. Beatriz e Juan I, o trono português seria herdado pelo rei de Castela e pelos seus descendentes. Finalmente D. Leonor Teles ficaria como regente de Portugal, enquanto D. Beatriz não tivesse um filho varão com 14 anos de idade. Vale a pena realçar que D. Beatriz tinha apenas 12 anos de idade quando D. Fernando morreu, pelo que o período de regência de D. Leonor Teles iria ser muito longo, o que provocou grande preocupação e descontentamento junto da nobreza e do clero.

Também as decisões nem sempre consensuais de D. Fernando I na política internacional e nas questões internas, procurando umas vezes a neutralidade e outras tomando partido por lados opostos abriram várias frentes de conflito na alta nobreza e no clero, que assim ficou dividido.

As várias guerras com Castela agravaram a situação económica e social do reino, e a falta de um filho varão legítimo que pudesse suceder na coroa foram fatores determinantes para os episódios que se seguiram e que originaram o período de interregno, entre o final da a 1ª dinastia e o início da 2ª.

Podemos afirmar, desta forma, que o acordo de Salvaterra de Magos, os fatores de crise social e económica que vinham a fazer-se sentir desde meados do século, conjuntamente com as divisões internas na nobreza e no clero e a falta de um filho varão legítimo, foram o rastilho para o início de uma crise dinástica, aberta com a morte de D. Fernando e o casamento da sua única filha legítima com o monarca castelhano.

Estavam assim reunidas as condições para uma crise dinástica que durou entre 1384-1385, terminando com a eleição nas cortes de Coimbra de D. João I, Mestre de Aviz, como rei de Portugal. D. João I dá assim início a um novo e importante capítulo da nossa história, iniciando a 2ª dinastia, a dinastia de Aviz.

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