Argus e a Frota Branca

A frota branca Portuguesa era composta por uma série de navios à vela, lugres, navios com três ou quatro mastros. Estes navios tinham como missão a pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova e Gronelândia. A frota branca celebrizou-se durante a II Grande Guerra Mundial por teimosia de António de Oliveira Salazar e do Estado Novo, porque naquela época a pesca do bacalhau era muito importante para o reabastecimento alimentar da população.

Santa Maria Manuela

Em 1942 dois destes barcos, o Maria da Glória e o Delães foram atingidos por submarinos alemães provocando uma série de vítimas e o afundamento dos mesmos. Como resultado destes incidentes, e tendo-se Portugal assumido como um país neutro no conflito, o estado Português chegou a um entendimento com os países beligerantes e acordaram que os navios bacalhoeiros portugueses fossem todos pintados de branco com a identificação da bandeira nacional e do nome do país bem visíveis nos seus cascos.

Este acordo foi respeitado por todos os países envolvidos no conflito e desde então os navios portugueses prosseguiram a sua missão, cruzando o atlântico sem mais incidentes, em busca do tão esperado, apreciado e desejado bacalhau.

Desta grande frota de navios, houve três que sobreviveram até aos dias de hoje e se destacaram pelas suas histórias. Venceram a barreira do tempo e conquistaram um lugar de destaque no património marítimo nacional, sendo hoje testemunhos vivos da nossa extensa e incontornável história marítima.

Comecemos por falar dos dois lugres que foram construídos lado a lado em Portugal nos antigos e já extintos estaleiros da CUF, na Rocha Conde de Óbidos em Lisboa no ano de 1937.

O Santa Maria Manuela e o Creoula. Estes navios foram construídos no tempo record de 62 dias! Incrível não é!?

Estes navios foram lançados à água no dia 10 de Maio de 1937 em Lisboa, foi um momento solene que contou com a participação do então Presidente da República General Óscar Carmona assim como várias honras militares.

O Santa Maria Manuela manteve-se em atividade até 1990, tendo sofrido profundas alterações no final da década de 1960, devido às inovações tecnológicas introduzidas na pesca do bacalhau.

Em 1990 foi considerado obsoleto e abatido para demolição, apenas o casco foi preservado. A partir daí deu-se início a um longo processo de recuperação que terminou com a devolução deste magnifico navio ao mar, preservando-se assim o património identitário nacional que este navio representa.

Hoje pode ser visto a navegar pelo mundo inteiro, está aberto ao público como navio escola, para cruzeiros turísticos, e para tarefas relacionadas com a investigação científica. É de uma graciosidade e beleza inconfundíveis.

Santa Maria Manuela

O seu irmão gémeo, o Creoula, fez a sua última expedição como navio bacalhoeiro em 1973. No ano de 1979 foi vendido à Secretaria de Estado das Pescas com a finalidade de ser convertido num museu de pesca. Após se verificar que o seu casco se encontrava em ótimas condições, foi decidido que o navio se manteria a navegar e seria transformado em Navio de Treino de Mar (NTM) para apoio na formação de jovens cadetes.

Creoula

Em 1987 o Creoula foi entregue ao Ministério da Defesa Nacional passando a designar-se Unidade Auxiliar da Marinha. Hoje em dia pertence à frota de navios da marinha Portuguesa, continua ativo e a desempenhar um importante papel na formação de novos cadetes, constituindo um verdadeiro elo histórico entre a relação de Portugal com o mar.

Por último o Argus! Este navio foi construído nuns estaleiros na Holanda em 1939. Fez campanha de pesca de bacalhau até 1970. Em 1974 foi vendido a uma empresa Canadiana, e depois a uma empresa americana, em Miami, de reconstrução de navios antigos. Esta empresa era propriedade de um antigo comandante de submarinos da marinha americana, Tim Burk, que transformava navios antigos para operações turísticas nas Caraíbas. Assim, o nosso Argus foi transformado num navio de passageiros com capacidade para 125 pessoas, foi rebatizado como Polynesia II e trabalhou nas Caraíbas durante 30 anos, quase tantos como na pesca do bacalhau.

Em 2006 Tim Burke morre e o navio Polynesia II é abandonado em Aruba, nas Antílhas Holandesas.

Havia dívidas acumuladas que era preciso pagar e o tribunal procede a um leilão do navio. Foi então que uma família Portuguesa, que teve várias gerações ligadas a este navio, decide resgatá-lo. Foi comprado no leilão por 90 mil dólares, e em 2009 o Argus volta a ser de novo português.

O Argus ficou conhecido mundialmente em 1951 por causa de um livro que apareceu nas melhores livrarias de Nova Iorque e Londres. O autor deste livro foi Alan Villiers, um experiente e reconhecido comandante da marinha australiana especialista em assuntos náuticos. Era também repórter da revista National Geographic e já tinha vários livros editados, como aquele em que acompanhou uma expedição norueguesa de baleiros à Antárctida.

O convite para acompanhar a frota portuguesa de bacalhoeiros na sua viagem anual à Terra Nova e Gronelândia partiu do embaixador português, Pedro Teotónio Pereira. Nesta altura Portugal tinha ainda 35 veleiros a funcionar na campanha pesqueira. Sendo Alan Villiers um homem do mar era impossível recusar este convite.

“Esta era a última frota à vela ainda em operação na Europa inteira. Tratava-se dos últimos veleiros de pesca, simples e despojados, que lutavam para retirar o sustento do fundo do mar (…), pescando de forma tradicional, com linhas e anzóis, usando aqueles pequenos botes a remos chamados dóris. No convés do Argus havia montículos deles – dez deles, com seis dóris cada um”

Já só os portugueses apanhavam bacalhau assim: um homem num dóri afastava-se do navio-mãe, desde centenas de metros até algumas milhas, a remo e depois, se havia vento, içava uma vela artesanal, e pescava à linha. Só quando tinha o bote cheio, ao fim de horas e horas, é que regressava ao navio.

Alan Villiers publicou uma reportagem no jornal New York Times. A promoção do livro foi feita através de um documentário “The Bankers – The Voyage of the Schooner Argus” e foram feitas várias conferências por diversas cidades norte-americanas. As rádios transmitiram também as suas palestras e as televisões partes do filme. No Reino Unido a BBC entrevistou Alan Villiers por duas vezes.

O Argus tornava-se assim o navio português bacalhoeiro mais conhecido do mundo, imortalizado por este livro e documentário que revelavam esta heroica viagem assim como a coragem e resiliência destes homens do mar que enfrentavam este trabalho duro e perigoso com uma alma que só os grandes guerreiros podem ter.

Ironia do destino, este navio esteve na origem do livro de Alan Villiers que imortalizou a saga da fauna do bacalhau, e o tornou conhecido em todo o mundo, contudo não teve a mesma sorte dos seus irmãos, que continuam navegando no mar, recuperados e em bom estado. O Argus continua, pacientemente diria eu, à espera que alguém investia na sua recuperação. Pode ser visto atualmente no porto bacalhoeiro na Gafanha da Nazaré.

Argus atualmente

No museu Marítimo de Ílhavo é possível ver o documentário de Alan Villiers, assim como fotos e toda a história da fauna maior, para além de um aquário de bacalhaus. De seguida pode passar no porto bacalhoeiro e admirar este navio cheio de história e carácter.

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