Coimbra

Situada estrategicamente entre o norte e o sul de Portugal, onde se extingue a meseta ibérica, o vasto maciço montanhoso que corta a península ibérica ao meio, e começa uma longa planície aluvial que se estende até ao oceano, encontramos a histórica cidade de Coimbra.

Coimbra

Coimbra é uma das cidades portuguesas com mais história e que desempenhou um dos mais importantes papeis na consolidação da monarquia portuguesa. Foi também um importante polo socioeconómico e cultural que teve grande desenvolvimento durante o século XII.

A presença humana nesta cidade remonta a tempos imemoriais de que são prova alguns vestígios pré-históricos neolíticos, como os que apareceram na Gruta dos Alqueves, atrás do convento de Santa-Clara-a-Nova.

O período de romanização deixou-nos também alguns testemunhos da existência de uma importante cidade romana da antiga Lusitânia. Construída no topo da colina, Aeminium daria mais tarde origem à cidade de Coimbra. O vestígio romano mais significativo desta cidade é o criptopórtico que servia de suporte ao fórum imperial, que ainda hoje se pode visitar por debaixo do Museu Nacional Machado de Castro. Outro vestígio importante é o aqueduto que levava a água para a Alta de Coimbra. Reconstruído por D. Sebastião, é hoje conhecido como os Arcos do Jardim.

No século V dá-se a invasão germânica da península, Suevos, Vândalos e Alanos estabelecem-se em vários territórios seguidos pelos Visigodos. Após sangrentas batalhas e a destruição da cidade de Conimbriga, situada a cerca de 17 km a sul, o bispo vê-se obrigado a mudar-se para Aeminium, mais segura em termos defensivos. Os habitantes de Conimbriga seguem-no e assim nasce Coimbra.

No ano de 711, as tropas islâmicas de Tarik atravessam o estreito de Gibraltar e invadem a Península. Vão conquistando território desde o Sul até chegarem a Coimbra, que fica sob o seu domínio durante cerca de três séculos. Em 878 Afonso III das Astúrias reconquista Coimbra, voltando a perdê-la para Almançor em 987. Finalmente em 1064 Fernando Magno reconquista definitivamente a cidade.

Coimbra torna-se então a capital de um vasto condado, limitado a Norte pelo rio Douro e a Sul pela fronteira muçulmana.

Mas os muçulmanos não desistem facilmente, e após várias tentativas falhadas de reconquista pelos guerreiros Almorávidas, Afonso VI de Leão e Castela pede auxílio a França. É nessa altura que chega à Península D. Henrique de Borgonha, valente cavaleiro. É sobrinho neto do célebre abade Hugo de Cluny, que promove juntamente com o Papa Gregório VII a renovação religiosa da Cristandade. D. Henrique casa com D. Teresa, filha de Afonso VI, que concede a D. Henrique os condados de Portucale e Coimbra, com o encargo de os defender contra os muçulmanos.

D. Henrique desempenha com grande êxito a sua tarefa e depressa ganha a confiança da aristocracia portucalense. Coimbra vê finalmente o seu foral outorgado por D. Henrique em 1111, concedendo-lhe amplas liberdades municipais.

Mais tarde, em 1143, o seu filho D. Afonso Henriques, torna-se na conferência de Zamora, rei independente de Portugal. Pouco depois transfere a corte de Guimarães para Coimbra e em 1147 conquista definitivamente Santarém e Lisboa.

Por este breve resumo se percebe a importância desta cidade na nossa história. Uma visita a Coimbra transporta-nos para a nossa verdadeira ancestralidade.

Infelizmente muito do património deixado pelos vários povos que viveram nesta cidade foi destruído e hoje pouco ou nada resta. O que mais me entristece é que a maioria das destruições ocorreram já em pleno século XX, fruto de uma má gestão do património e um completo desrespeito pela história e cultura.

Contudo, Coimbra continua a ser uma cidade muito interessante e com muita história para contar, e muitas coisas para ver e para fazer. Neste post vou falar sobre alguns monumentos, jardins e museus que poderá visitar, assim como algumas dicas para simplesmente passar o tempo deambulando pelas velhas ruas da cidade. Sendo a oferta bastante grande e diversificada cabe-lhe a si planear quantos dias deseja passar nesta histórica e fantástica cidade.

O que ver e fazer:

  • Mosteiro de Santa Cruz

Atualmente classificado como panteão Nacional tem os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I, seu filho. Não fosse este motivo suficiente para uma visita, este mosteiro, da ordem de Santo Agostinho, é uma das instituições que mais a fundo marcaram a vida portuguesa dos primeiros séculos da nacionalidade. A sua fundação contou com o apoio do primeiro rei de Portugal que doou a D. Telo uns banhos da época romana ou islâmica, denominados Balneum Regis. Foi construído por dois arquitetos franceses que trabalhavam então na catedral em Santiago de Compostela: Roberto e Bernardo. A igreja tem uma fachada parecida com o que haveria de ser a Sé Velha. Era uma igreja fortaleza com a sua torre defensiva. Não esqueçamos que Coimbra estava na fronteira com o Islão. Esta primeira construção, iniciada em 1131, seria profundamente alterada por D. Manuel I, que chamou do Mosteiro da Batalha o famoso mestre Diogo Boytac para reconstruir a igreja e o claustro. O portal foi acrescentado mais tarde em 1522 por Diogo de Castilho, com 7 esculturas de Nicolau Chanterene. Em cima à esquerda estão S. Gregório e Santo Ambrósio, no centro a Nossa Senhora, o profeta Isaías e o Rei David, e em cima à direita S. Jerónimo e Santo Agostinho.

A sua escola foi fundamental nestes tempos medievais e ponto de passagem obrigatória para as elites do poder e da intelectualidade. O seu “scriptorium” foi responsável pela máquina de propaganda de D. Afonso Henriques que com os seus textos ajudou a criar a mítica história da aparição de Deus num sonho, a D. Afonso Henriques, imediatamente antes da batalha de Ourique, contribuindo assim para a crença que era desígnio dos Deuses a confirmação de D. Afonso Henriques como rei e a consolidação de Portugal como reino independente.

São muitas as salas e obras de arte que podem ser apreciadas no Mosteiro de Santa Cruz. A igreja tem uma só nave e várias capelas laterais, sendo a mais antiga a dos Mártires franciscanos de Marrocos. As paredes são revestidas por azulejos que contam do lado esquerdo a história da descoberta de Santa Cruz, em Jerusalém, por Santa Helena, e do lado direito retratam a via de Santo Agostinho. O púlpito do escultor francês Nicolau Chanterene construído entre 1518 e 1522 é uma obra prima do renascimento.

Na sacristia podemos apreciar as pinturas de dois dos grandes pintores quinhentistas, Cristóvão de Figueiredo com o seu magnífico Ecce Homo e o famoso Pentecostes de Vasco Fernandes (Grão Vasco).

São também notáveis o cadeiral do coro-alto executado em 1512 pelo entalhador nórdico Machim, que retrata os episódios mais notáveis dos Descobrimentos, e o grande órgão de tubos construído por Manuel Brito Gomes Herrera entre 1719 e 1724.

Este é sem dúvida um dos mais importantes Mosteiros nacionais e que muitas vezes, por falta de conhecimento, fica esquecido.

  • Sé Velha

Trata-se de um dos mais antigos exemplares da arte românica em Portugal. Foi construída no reinado de D. Afonso Henriques em 1162, pelo bispo D. Miguel de Salomão. A sua construção prolongou-se até 1320. Aqui foi coroado D. Sacho I em 1184. A sua construção faz lembrar um castelo. São de realçar a Porta Especiosa na fachada poente, obra prima do renascimento, o retábulo principal, obra em talha dourada e policromada dos escultures flamengos Olivier de Gand e Jean de Ypres, iniciada em 1498 e concluída em 1508. Com mais de 500 anos conserva-se ainda em perfeito estado! Podem admirar-se também pinturas em tela do século XVII. O claustro gótico foi construído a partir de 1218 no reinado de D. Afonso II.

  • Sé Nova

Começou a ser construída em 1598 e destinava-se a servir de igreja ao Colégio de Jesus. Instituição criada pelos padres jesuítas em Coimbra no ano de 1542 com o objetivo de formar os jovens que queriam seguir os ideais missionários de Santo Inácio de Loyola. Em 1759, os jesuítas foram presos e expulsos de Portugal e os seus bens foram doados à Universidade. A partir de 1722 a igreja passou a servir de nova Sé Catedral desta diocese.

  • Museu Machado de Castro

O museu está situado precisamente no local onde se erguia o fórum imperial, coração da cidade romana de Aeminium. As fundações do fórum podem ser admiradas no criptopórtico existente debaixo do atual edifício. Este espaço está marcado pela história da cidade. A partir da Idade Média e ao longo de muitos séculos foi templo cristão e residência episcopal. Em 1911 passou a ser museu. Recentemente foi requalificado e ampliado, oferecendo agora excelentes condições aos sues visitantes. Apresenta coleções de escultura, ourivesaria, pintura, cerâmica, mobiliário, têxteis e tapeçaria, que vêm da região de Coimbra, especialmente dos conventos, igrejas e mosteiros, entretanto extintos em 1834. 

  • Universidade de Coimbra

Fundada por D. Dinis, em Lisboa, a 1 de Março de 1290, é uma das mais antigas universidades do mundo. Como outras universidades europeias fundadas na Idade Média, gozava de completa autonomia institucional, governava-se a si própria, organizava o ensino, escolhia os seus mestres e estava fora da jurisdição normal da época.

Transferida definitivamente para Coimbra por D. João III em 1537, e por forte influência do Mosteiro de Santa Cruz, tornou-se uma das mais prestigiadas Universidades da Europa. Inserida nos Paços de Alcáçova, antigo Paço Real, os seus edifícios conferem carácter e grandeza à Universidade de Coimbra, que em 2013 foi classificada pela UNESCO Património Mundial da Humanidade.

A entrada faz-se pela icónica Porta Férrea, coroada pela figura da Sapiência, a insígnia da Universidade. No exterior pode apreciar-se uma estátua de D. João III e as estátuas que representam as Leis e a Medicina. No lado interior da porta pode observar-se uma estátua de D. Dinis e duas estátuas que representam a Tecnologia e os Cânones.

No lado direito do Paço encontra-se a Via Latina, extenso pórtico que dá acesso aos estudos gerais, claustro circundado pelas salas de aula da Faculdade de Direito, bem como à sala dos Capelos, à reitoria e ao instituo jurídico.

De salientar a importância da Sala dos Capelos, que foi onde aconteceram importantes atos da vida da nação Portuguesa. Esta era a sala do trono do Paço Real de Alcáçova, onde ocorreu a aclamação, nas cortes de 1384, de D. João I, mestre de Avis. Este Paço Real foi também o local onde viveram todos os reis de Portugal durante a 1ª dinastia.

A biblioteca Joanina é um dos locais mais procurados por quem visita a Universidade e uma obra prima do Barroco. Considerada uma das mais belas do mundo, iniciou-se em 1717, no reinado de D. João IV. O edifício tem 3 pisos. No primeiro, o andar nobre, está instalada a biblioteca. Tem 3 grandes salas revestidas de belas estantes e varandas decoradas com talhas e pinturas a ouro sobre fundo azul e vermelho, decoradas com motivos chineses. Os tetos estão decorados com alegorias dedicadas ao triunfo da Universidade. O piso intermédio consiste numa grande sala com abóboda em tijolo que serve de depósito de livros e sala de exposições. No piso inferior pode ainda ser visitada a Prisão Académica, que resulta da antiga autonomia institucional da Universidade, que possuía a sua polícia própria, a Guarda Real Académica, hoje representada pelos Archeiros. Funcionou com cárcere até 1843, altura em que a Universidade perde a sua jurisdição autónoma.

Pode ainda visitar a capela de São Miguel onde poderá apreciar o portal manuelino de inspiração naturalista, um magnifico tapete de azulejos, e o imponente órgão de tubos em estilo barroco construído em 1732, para além de outras obras de escultura, pintura e o magnífico retábulo mor em estilo maneirista.

E porque este post já vai bastante longo, termino com a sugestão de um passeio pelo agradável jardim botânico seguido pela rua Sofia e baixa de Coimbra onde poderá admirar os antigos colégios e disfrutar da sempre agradável companhia do rio Mondego. Não se esqueça de entrar numa das antigas tascas, na baixa, e provar um delicioso pastel de bacalhau acompanhado de um bom copo de vinho num típico e descontraído ambiente Português. Se ainda restar alguma energia, porque não passar pela porta de Almedina e subir a calçada do quebra-costas para assistir a um espetáculo de fado de Coimbra. Realiza-se diariamente às 18:00 com direito a uma pequena prova de vinho do Porto no final.

Bons passeios!

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